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Incompletos


Ele pestanejou, me olhou com o canto do olho esquerdo e implorou baixinho pela minha permanência. Eu quis me desmembrar e sumir sem deixar pistas; eu quis correr, fugir, nunca mais voltar e acima de tudo, nunca mais me arrepender. Mas eu sempre tenho medo de tudo e tudo sempre tem medo de mim, então eu fiquei. Eu tinha medo da ausência, do vazio, da turbulência. Eu permaneci porque o colo que ele me dava no fim do dia me fazia acreditar que estava tudo bem. Só que, droga, não estava. Ele nunca fez os pelos dos meus braços se eriçarem, a voz dele não era a minha preferida, ele sempre me fazia olhar pra trás e o mais importante e relevante, eu nunca quis parar o tempo por nós dois. Ele nunca andou por linhas tortas, nunca disse coisas que se arrependeria, tampouco me fez chorar. Nunca discutimos, aliás, ele nunca perdeu o seu tempo apontando os meus defeitos ou tentando solucionar os meus erros. A gente nunca saiu da rotina, ele nunca me surpreendeu ou me fez, por segundos que seja ter a certeza de que eu estava fazendo a coisa certa. Nunca nos completamos, de fato, e ainda assim eu insisti. Fiquei porque me apavorava saber que no dia seguinte eu não teria aquele estúpido apartamento para visitar e me atormentava saber que outra garota rabugenta passaria a frequentar aqueles bares imundos que a gente ia ao fim de semana. Era engraçado, porque em nenhum momento ele me fez sentir a guria mais sortuda do mundo - como acontece naqueles livros idiotas que fazem a gente acreditar em final feliz. Ele me abraçava como se pedisse para que eu jamais deixasse de ser essa garota burra que no fim do dia sempre volta para ele e eu retribuía querendo dizer que ele era o cara mais imbecil do mundo por desperdiçar a chance de ser feliz comigo por conta dessa incapacidade mesquinha de amar o próximo. Não tínhamos um futuro próspero, sequer fazíamos planos como esses casais apaixonados que idealizam uma vida perfeita ao lado do outro. Vivíamos unicamente o presente e vez ou outra, ele não era o suficiente para nos preencher. Ele me puxou pra perto, fez um cafuné meio desajeitado e sussurrou no meu ouvido que eu era a guria mais complicada que já havia sido de posse dele. O irônico era que, eu não pertencia a ele. Droga. Entretanto, eu sorri e assenti, mais uma vez. A gente vivia nesse jogo estúpido, nessa negação, nesse deslumbre barato pela liberdade que tínhamos quando estávamos juntos. Nunca iríamos para frente. Mas enganar a nós mesmos passou a ser a melhor alternativa porque eu sei que ele tinha medo de ficar sem a minha presença. E o pânico que eu possuía de me desprender era maior do que a minha vontade de voar. Nós fingíamos não ver o grotesco ponto de interrogação que éramos; fugir da realidade sempre fez as coisas ficarem um pouco melhor, de qualquer forma. Nunca nos entregamos, nunca demonstramos vontade de fazer com que as coisas dessem certo, e ainda assim, eu continuava passando a noite naquele apartamento barato debaixo dos braços dele e ele continuava fingindo acreditar que eu era a guria complicada que jamais deixaria de ser dele.

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