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NĂŁo vou dizer que perdi a fĂ©, pois nĂŁo a perdi. TambĂ©m nĂŁo vou falar do caminho atĂ© aqui, das flores mortas, dos discos arranhados, das cartas queimadas, das casas desabadas ou das ilusĂ”es desconstruĂdas. Talvez gostaria de ter perdido, de nĂŁo esperar nada de ninguĂ©m, de dobrar na prĂłxima esquina sem esperar chuva ou sol, sabendo que atĂ© as cores do arco-Ăris tem um pouco do bem e do mal. Tanto faz, tanto fez. Tanto foi, tanto serĂĄ. Eu vou na onda, ou a onda vai em mim, "tanto faz". Mas isso nĂŁo me faz, nĂŁo me preenche; a desesperança nĂŁo me tem, ainda que me acene diariamente. NĂŁo digo que tudo serĂĄ igual, que amanhĂŁ sĂł vai repetir o ontem e a decepção Ă© uma carta marcada. Eu queria, mas eu ainda olho duas vezes para o lado na esperança de encontrar algo ou alguĂ©m a mais. Ainda espero que a vida me espere, me queira como eu a quero. E dizem nĂŁo existir nada pior do que expectativas ou insistir em bater nas portas que nĂŁo se abrem. Cada expectativa que morre me faz dormir como se nĂŁo houvesse amanhĂŁ, mas hĂĄ, sempre hĂĄ e, tambĂ©m, ninguĂ©m nos avisarĂĄ quando nĂŁo houver. E a desgraça do amanhĂŁ Ă© que ele sempre renova a minha fĂ© nos acasos, nas pessoas, nos porĂ©ns, na vida que nĂŁo se cansa de girar. Deve ser isso, os tais giros da vida que me ainda me prendem por aqui, no campo minado que Ă© acreditar sempre um pouco mais do que parece ser. Deve haver em algum lugar uma boa justificativa para eu cair e nĂŁo cansar de levantar.
Eu ainda nĂŁo perdi a fĂ©. Ăs vezes eu erro o gol, mas o escanteio ainda Ă© uma vantagem a meu favor.