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Tempestade

- 20:19 ❞

Eu achei que não te amava mais. Eu vesti a carapuça de quem havia seguido em frente, de quem não iria voltar atrás. Eu pensei que não havia mais nada que me fizesse ficar. Até te sentir de novo. Até notar suas mãos percorrendo cada parte de mim com tamanha urgência que fez reacender toda e qualquer ligação que pudesse estar perdida em algum submundo. Quando te vi parado no meu portão, às três da manhã de uma quarta-feira, amedrontado e exausto desse amor que a gente não consegue explicar e nem entender, eu percebi que ainda sou apaixonada por você. Eu ainda respiro a sua existência.
Eu tô incrustada na sua pele. Eu tô nas músicas que você escuta, nos filmes que você assiste, nas bocas que você beija, no whisky que você ingere e nas piadas que você ri. Eu tenho moradia garantida em você, e é por isso que ainda hoje, mesmo depois de tanto tempo, você ainda frequenta a minha calçada em algumas dessas madrugadas que a falta passa a sucumbir. Você não entende, mas sabe.
Eu fui o furacão que te desordenou. Eu te baguncei da cabeça aos pés e ainda assim você não conseguiu me deixar. Já você foi tempestade do início ao fim. Alagou partes em mim que eu mal sabia da existência e deixou tantas outras em desuso. Eu só consigo amar você e ninguém mais. Eu queria tanto, mas tanto conseguir encarar outra pessoa por mais de dez segundos, sem me sentir vazia e desumana. Você levou tudo de mim. Eu não sou mais a mesma que você conheceu há sete anos atrás, mas ainda sinto a mesma paixão enfurecida que senti por você desde a primeira vez em que fui sua.
Quando eu te vi frustrado, desorientado, bêbado, e escorado na porta do carro em frente ao meu portão, eu entendi. Você também não é mais o mesmo, mas ainda assim volta pra mim. Já fazem meses desde que rompemos o elo imaginário que nos unificava e eu ainda te sinto da mesma forma. Ainda sinto admiração por cada parte que te constitui, mesmo depois de todas as vezes em que a gente feriu um ao outro. Seu mal não foi por mal.
Nunca fui amada por ninguém da mesma forma que fui por você. Não sei se sou merecedora de um sentimento tão brando e bonito que você ainda nutre. Sei que muitos passam a vida inteira procurando isso que a gente sente tanto e de forma tão fugaz. A diferença é que nunca soubemos lidar com tamanha explosão. Sempre tive medo. Você também.
Eu ainda sou apaixonada por você. Pela forma que você ri quando está nervoso, pela sua barba milimetricamente aparada, pelo jeito que você prende o cigarro na boca, por você continuar segurando a minha mão, mesmo depois de tudo, apesar de tudo. Eu ainda penso muito em você e na forma com que a gente conduziu a nossa história. Você também se pergunta o que teria sido da gente se tivéssemos sido mais fortes? Nós estávamos tão cansados que não cogitamos a possibilidade de continuarmos sentindo o mesmo amor que nos fez chegar até aqui. Eu pensei que fosse passar.
Amar você foi a coisa mais louca e anestésica que eu já fiz em toda a minha vida. Não me arrependo, nem mesmo por um segundo, mas eu penso muito. Penso em todas as situações em que a gente se colocou e não soube se sobressair. Penso nas noites em que quis estar com você enquanto rondava a cidade procurando alguma saída que não envolvesse a sua cama. Penso nas coisas que a gente já disse e já fez um para o outro que seria o suficiente pra estampar as páginas de algum best-seller. E nos dias em que eu pensei estar livre de todo e qualquer sentimento, até me deparar com os seus olhos.
Você ainda me confunde. Você ainda faz minhas pernas tremerem e meus pulmões arderem. Você ainda é o motivo pelo qual eu me levanto da cama às três da manhã. Você ainda me faz querer voltar. Estar frente a frente à você enquanto você se despe de toda a sua carcaça de valente e inatingível ainda me faz soluçar. Eu não nasci pra te ver vulnerável. Você sempre foi a minha fortaleza e te ver tão perdido e desestabilizado como eu me encontro, me faz querer desistir. Eu não sei mais o que fazer. Eu não imaginei que ainda estaríamos tão vivos como agora. Eu nunca pensei que ainda seríamos nós, após todo esse tempo.
Eu achei que não te amava mais, até te sentir adentrando por cada partícula que me funde e que ainda te pertencem. Eu achei que não precisava mais de você, até sentir a urgência do meu calor que faz morada no teu peito. Eu não sei se algum dia eu vou estar livre disso. Seu amor ainda me constitui. E o seu semblante grita meu nome. Eu não consigo te deixar.
Ontem à noite deu tempestade. Vou encarar como um sinal. Você voltou, mais uma vez.

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